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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Reflexos


Nas poças de chuva que a rua enfeitam
há um milhão de coisas:
um alto edifício com um velho à janela,
um ramo frondoso com suas mil folhas,
dois pombos cinzentos em encontro amoroso,
um vaso de flores que a senhora observa,
as nuvens bojudas, percorrendo o céu
e a folha dourada que o plátano larga,
que vem a voar, flutua e poisa
serena, confusa, no mar...

E, então, se te chegas mais perto,
estendendo a mão para o barco alcançar,
é o mundo que eu vejo na poça de água,
magnífico, fascinante, reflexo vibrante
do teu puro olhar.

(Ilona Bastos)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Amizade


Uma semente que ensaia a vida
Através da verdura.
Mais tarde, um botão
Que as folhas acolhem
Com leve doçura.
E a flor que se ergue,
Sorrindo ao sol,
Brilhando ao luar.
Tal é a Amizade,
Que nasce, que cresce,
Que a vida engrandece,
E só ao coração
Compete guardar.

(Ilona Bastos)

domingo, 4 de abril de 2010

Não me esqueças!


Por favor, não me esqueças,
Só porque o mundo gira e rola,
As aves evadem-se para Norte
E as flores recolhem-se, no silêncio...
Por favor, não me esqueças,
Nem quando a lua se esconde, no céu,
E as nuvens viajam, clareadas,
Na noite que desce sobre nós.
Por favor, não me esqueças,
Até que eu chegue ao sol poente
E me volte para ti, acenando,
Suba o arco-iris, cantando,
E desapareça na névoa e no mar..
Só, então, sim, tu podes, tu deves
Esquecer-me. Então, não serei mais
Que uma onda de espuma
Banhando a areia.


(Ilona Bastos)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Perfil


Parte de mim é balão
Que no alto céu flutua,
Pela criança lançado.

Parte de mim é criança
Que em júbilo corre, feliz,
Dançando pelo relvado.

Parte de mim é relvado,
Tranquila e verde extensão
Com suas manchas de flores.

Parte de mim é mulher,
A doce mãe protectora,
Cuidando dos seus amores.

Parte de mim é a moça,
Em namoro apaixonado
No recanto do jardim.

Parte de mim é o banco,
Livro, lápis e papel,
O perfume de jasmim.

Parte de mim é o sábio,
que observa, paciente,
balão, criança, relvado,

A senhora e seus amores,
E os moços do recanto,
Em abraço apaixonado.
(Ilona Bastos)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Dias outonais


Tanto necessito de harmonia,
Que dos meus gestos faço dança,
Para que a arte torne belos
Estes dias curtos do Outono.

Limpo cada folha da palmeira
Como quem penteia os cabelos de oiro
De uma princesa donzela.

Atento, o meu olhar passeia manso
Sobre as construções passantes,
Quando em trânsito navego na cidade,
E lentos desfilam edifícios altos
Nas margens empedradas da avenida.

Prendo-me aos detalhes do mármore jovem,
Do ferro forjado da varanda antiga,
Às minúcias doces de um jardim cuidado,
À cortina em renda por trás da vidraça…

Rola-me entre os dedos a caneta prata
Sinto-a macia, em ânsias de apontar
As palavras prontas que lestas irrompem
Na tarde outonal.

Na chegada a casa, no abrir da porta,
Na entrada escura, no buscar da luz,
Imito a elegância do bailado,
Cisne encantador, fonte de candura,
Em gestos suaves que no ar desenho…

E assim se passam os dias do Outono.
Como a folha seca que ao vento se entrega
E sonhando voa, ave por segundos,
Cada vez mais alto, mais longe, mais leve,
Até que o remoinho, ao virar da esquina,
Tolha o seu caminho

(Ilona Bastos)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Houve um tempo


Houve um tempo em que o tempo não tinha fim.
Percorriam-no jogos, corridas e risos pelo jardim,
Ou as rodas de uma dança de criança, de um triciclo,
Um ciclo de fitas animadas, livros de contos de fadas,
Baladas, romances de príncipes e princesas encantadas…

Houve um tempo de inocência, em que a aventura
Sorria, espreitando, em cada esquina, e era ventura
As pistas descobrir, e do mistério desvendar a solução,
Na convicção de quem é vencedor na luta pelo bem
E tem, em si, a ambição de ser gigante - ser alguém!

Houve um tempo de sonhos como botões de rosa,
A florescer no desfiar dos pensamentos de uma prosa,
A gentilmente se expandir em pétalas coloridas, delicadas,
Perfumadas de magia, de um aroma que embriaga, inebria
E nos guia, qual brisa suave, pelos caminhos da Poesia.

Houve um tempo em que o futuro se desenhava luminoso,
Longínquo, belo horizonte pleno de esperança, grandioso,
E que os passos, alegres, decididos, cheios de felicidade,
Pela cidade me levavam, corajosos, e seguros revelavam,
Antecipavam, carinhosos, o amor imenso que buscavam…

Houve um tempo em que o presente era também futuro,
Em que, vivendo a dois tempos, lançava meu olhar puro,
E dali mesmo antevia, leda visão do porvir, o que seria,
Viveria sonhos de amor e grandeza, que ainda ouso atrair,
Ouvir promessas de então, que o coração quer cumprir.

(Ilona Bastos)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Palavras em Flor



Percorro as linhas do meu texto
Como o jardineiro se passeia
Entre os canteiros do seu jardim.

Trato as palavras como se fossem flores.
Se estão murchas, dou-lhes sentido,
Arranco-as sem dó, se são daninhas,
Semeio virgulas com inglória hesitação,
Enterro pontos e vírgulas, pontos finais,
Como estacas a amparar trepadeiras
Orações em crescente entusiasmo,

Caminho serena, ou correndo, vezes inúmeras,
Apreciando o efeito, a cor, a luz, a conclusão.
Volto insistente, buscando gralhas, que as sinto lá
E encontro-as, matreiras, palradoras, bicos em riste
Xô! Fora daqui! Sou espantalho assustador!

O texto é o meu jardim, meu verde campo,
Minhas palavras são minhas dilectas flores.

(Ilona Bastos)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Ritual do Café...


O Ritual do Café

Estampa-se o sol em delicados raios
Sobre o mármore branco e liso da cozinha.

Suavemente me debruço e uma porta abro,
Recolho a chávena fina e o florido prato.

Ergo o meu braço e num voo livre,
No gesto de um armário desvendar,
Recolho o nobre pó de inebriante aroma.

Alongo a mão que a gaveta encontra,
E dela escolho, enfim, a colher mais bela,
Brilhante, pequena, com terno recorte.

Tudo coloco em ordem e harmonia:
O prato tranquilo e a expectante chávena,
Nesta, o torrado grão moído, de castanho intenso.

No açúcar rico, centro o meu cuidado,
A montanha branca transportando, pura,
Em bojuda prata que doce se inclina.

E luzem cristais em cascata linda!
Depois, a água borbulhante, quente,
A mistura inunda, dissolvendo-a
Em espirais de espuma que a colher adorna.

Café! Café! Precioso encanto!
Em dégagé devant te cumprimento,
Os meus braços lanço em acolhimento grato.

Da janela aberta me acerco então.
Tão bela é a vista que o Outono pinta no jardim!
Castanho da terra e verde das plantas unem-se
À água que brilha em bebedouro antigo.

Aspiro, feliz, da manhã tranquila, o seu odor
A quente café e à relva orvalhada.
Olho o céu e sorvo um gole, outro e outro.

E assim me quedo, por instantes longos.
Entre o prazer forte do café e a doçura da manhã
Mais um dia de vida se inicia!

(Ilona Bastos -Lisboa, 24 de Outubro de 2004)