quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Da minha aldeia...


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

(Alberto Caeiro)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Poema de Primavera


Metamorfose dos encantos
Encaixe dos sentimentos
Delicadezas se ondulam em flores
Nas asas da imaginação
Seu sorriso, meu disfarce
Me perco no equinócio do seu florescer
Num canto bem adubado do meu coração
Outra semente germina
Pulula em vida pós-inverno
De begônias e hortênsias
Ornando meu caminhar.
Quem hibernou, involuntário
Ao saltar para a primavera
Encontra suave brisa
A refrescar a tez acalorada febrilmente.
Enfim vitória de uma semente
É primavera chegando
A esperança renascendo
O colorido tingindo
O caminho do passante
Desencasula... para a vida
Desacrisola... para a maturidade
As forças da natureza me deixam e êxtase
Momento de recomeçar
Floreça em mim a primavera de minh'alma
As lágrimas transformem-se em suave brisa
Ou num orvalho manso a regar meu coração...
Estação das flores dentro de mim,
Reaja ao inverno sequioso dos sonhos meus
E brotem novos sonhos
Novas forças,
Nova vontade de sonhar.
Caminho lentamente, mas com firmeza
Esqueço o que doeu
Apago o traço da dor
Aborto a palavra saudade
Construo ruas de felicidade
Onde dançarei a dança da paz
Com o arco-iris a brincar
Ao vento vão os pensamentos
Novos sonhos, novos alentos
O tempo... ah, o tempo! Meu íntimo confidente,
A primavera me trouxe.
Um dia novo está surgindo
Um sonho novo me envolve
Vida nova...
Saúde...
Paz...
Enfim, a primavera me beija a face.

(Alice Poltronieri)

domingo, 22 de agosto de 2010

Loucos e Santos...


Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

(Oscar Wilde)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ostuni - Itália





Ostuni é uma bela cidade na província de Brindisi (Puglia). A região ao redor de Ostuni tem sido habitada desde a Idade da Pedra e tem a fama de ter sido originalmente estabelecida pelo Messapii , uma tribo pré-clássico, e destruído por Hannibal durante as Guerras Púnicas. Foi então reconstruída pelos gregos e o seu nome que dizer ("nova cidade").
Após a queda do Império Romano do Ocidente, em 996 a cidade tornou-se parte de Lecce. A partir de 1300-1463 era parte do Principado de Taranto e em 1507 (juntamente com Villanova e Grottaglie ) passou a Isabella, duquesa de Bari, esposa de Gian Galeazzo Sforza, duque de Milão. Sob a influência de Isabella, Ostuni desfrutou de uma idade de ouro dentro do panorama mais amplo do Renascimento italiano.
Neste período foi dada proteção aos humanistas e as pessoas da arte e letras, incluindo o bispo Giovanni Bovio. Isabella morreu em 1524 e passou Ostuni como dote a sua filha Bona Sforza. Em 1539, ela tinha torres construídas ao longo de todo o litoral, como proteção contra os ataques dos turcos.
Ostuni é considerada uma jóia arquitetônica, e é comumente referida como "Cidade Branca" ("La Città Bianca", em italiano).
No Verão Ostuni é um destino popular para turistas de todo o mundo. A população aumenta de cerca de 30.000 habitantes no inverno para cerca de 100.000.

sábado, 7 de agosto de 2010

Soneto de Florença


Florença... que serenidade imensa
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença

Das coisas que passaram mas que urgem...
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem
No meio do caminho da descrença...

Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada

Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Infinito


As coisas que amamos,
as pessoas que amamos,
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra maneira se tornam absolutas,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis...
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 20 de junho de 2010

Espaço Curvo e Finito


Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

(José Saramago)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Carpe diem


Horácio, um dos maiores poetas da Roma Antiga, ficou famoso pelas suas Odes, longos poemas líricos, onde ele descrevia o cotidiano da vida ou passagens da mitologia romana.

Nas suas características literárias, destaca-se sempre a ideia de se aproveitar o presente, sem muita preocupação com o futuro.

Essa sua ideia atravessou o tempo através de uma expressão muito citada, encontrada em uma de suas Odes: Carpe diem.

Frequentemente tal expressão latina é traduzida como Aproveite o dia. E essa era a preocupação do poeta romano, pois imaginava ele a vida muito breve para não ser aproveitada.

Ao escutarmos o convite de Horácio, Carpe diem, nos perguntamos:

Afinal, o que é aproveitar o dia?

É certo que a resposta para tal pergunta irá depender fundamentalmente do que esperamos para a vida e para o depois da vida.

Afinal, aproveitar o dia para quê?

Para o materialista, Carpe diem será gozar ao máximo a vida, todas suas emoções e prazeres, e somente isso.

Como, no seu conceito materialista, nada o aguarda depois da morte, a vida acaba se tornando breve demais.

O materialista imagina-se constituído de um apanhado de bilhões de células ordenadas ao acaso, por um casuismo biológico e crê que nada o aguardará após a vida física se extinguir.

Assim, aproveita a vida, que se extingue minuto a minuto, nos prazeres materiais e físicos, já que se ilude que nada mais existe, além daquilo que pode enxergar.

Outros há, ainda, que vivem com a certeza de que, em uma única existência, Deus nos irá julgar, bons ou maus, e nos condenar a uma felicidade ou desdita eternas, conforme o resultado de tal julgamento.

Para esses, aproveitar a vida será sempre a contagem regressiva de um dia a menos de erro ou de tropeço.

Uma vez que seremos julgados eternamente pelo procedimento de uma única existência, quanto antes essa acabar, melhor será, pois que menos chances teremos de errar.

Imaginando que, com o resultado de uma única vida, Deus dará um veredito eterno, Carpe diem será a ansiedade de que tudo acabe, e que, ao final de tudo, não tenhamos tropeçado, pois outra chance não haverá.

Há ainda a possibilidade de imaginarmos a vida como uma continuidade de outras tantas que já se sucederam, e a antecipação de outras que virão.

Ao entendermos que a vida de hoje é o reflexo do ontem, e que o amanhã será a colheita do plantio feito hoje, aproveitar a vida toma um colorido diferente.

Já não mais a ânsia para uma vida que irá se extinguir. Tão pouco a ansiedade para uma vida que irá ser nosso veredicto.

Viveremos com a certeza de que estaremos aproveitando o dia, quando fizermos de cada um deles aprendizado para a alma, quando exercitarmos virtudes, quando nos esforçarmos para apagar defeitos.

Estaremos realmente aproveitando o dia, quando as dores que ele porventura trouxer se transformem em entendimento e lição, e as alegrias fruídas se convertam em louvores pela bênção da existência.

Todos nós deveremos aproveitar a vida, entendendo-a como uma grande escola, onde a lição maior de aprendizado será o conjugar do verbo amar.
(M.Espírita)

quarta-feira, 26 de maio de 2010


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Reflexos


Nas poças de chuva que a rua enfeitam
há um milhão de coisas:
um alto edifício com um velho à janela,
um ramo frondoso com suas mil folhas,
dois pombos cinzentos em encontro amoroso,
um vaso de flores que a senhora observa,
as nuvens bojudas, percorrendo o céu
e a folha dourada que o plátano larga,
que vem a voar, flutua e poisa
serena, confusa, no mar...

E, então, se te chegas mais perto,
estendendo a mão para o barco alcançar,
é o mundo que eu vejo na poça de água,
magnífico, fascinante, reflexo vibrante
do teu puro olhar.

(Ilona Bastos)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quero


Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Este é o inverno


Um frio de leve
vem pra ficar.
A brisa suave
faz a árvore balançar.
O vento sopra
assobiando.
O céu escuro
vai ficando.
As nuvens passam
de mansinho.
A chuva chega
devagarinho.
As pessoas correm
abrindo guarda-chuvas.
Vi um homem de casaco
e uma mulher de luvas.
É esse o inverno
sorrateiro.
Vem chegando
e nem avisa primeiro.

(Clarice Pacheco)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Existe um Lugar


Existe um lugar onde se descansa!
Onde se guarda coisas boas!
Onde se pode descrever o coração e a alma!
Existe um lugar onde as letras se soltam!
Onde a poesia dança!
Onde o amor se faz entre poeta e poesia!
Existe um lugar de verdades plantadas!
De identidade reconhecida!
Lugar onde a Arte se deixa brincar!
Onde a brincadeira é só para emocionar!
Existe um lugar onde não existe palco único!
Onde o principal é o conjunto!
Onde os elogios são estimulantes!
Onde se entra e não se deseja sair!
Existe um lugar com cheiro de gente feliz!
Com poetas e poesias que vivem da verdade!
Existe um lugar onde os criadores se rendem as suas criações!
Onde se admira a palavra “dom”!
Onde a simplicidade cria raiz para virar inspiração!
Existe um lugar onde se nasce!
Renasce!
Cria-se!
Cresce-se!
E Ama-se muito tudo que se faz!
Esse lugar é aqui!
Tire os chinelos então...
Balance as asas!
Respire fundo e viaje conosco.!

(Mony Mello)

sexta-feira, 30 de abril de 2010


"No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ... "

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 26 de abril de 2010


Às vezes me perguntam, porque não escrevo algo meu nesse blog.
A resposta é... "Não consigo, não tenho inspiração para isso."
Confesso que amo todos esse poemas, textos, mensagens... cada postagem que aqui está. A verdade é que nasci para apreciar, para admirar... e como admiro!!!
Admiro tudo o que meus olhos transportam para meu coração e como isso me faz feliz, como preenche minha alma.
Abri esse blog, para dividir, compartilhar o que gosto com os visitantes. Por enquanto é só isso.
Amanhã, quem sabe...