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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Assaltei o Entardecer...


Ontem, roubei as palavras que não tinha, ao entardecer.
Ele nem se deu conta de tão atarefado que andava a arrumar a casa depois da festa de mais um dia.
Era preciso arrumar tudinho nos lugares certos, limpar o que restou do reboliço imprevisto da chuva, pintar o céu de vermelho, aproveitando os raios de sol já tão enfraquecidos pelo cansaço da luta, contra as nuvens pesadas e poderosas.
Era preciso adormecer as campainhas amarelas da Primavera, os brincos de princesa dos canteiros das casas da aldeia toda; convencer os passarinhos tagarelas, a calarem-se e a sossegarem nos seus ninhos, feitos lá nos ramos cimeiros das árvores.
E as estrelas?
Ninguém se lembrou ainda de as acender?
É preciso acender as estrelas e já!
Tudo tinha de estar perfeito para ela...
Por fim ela chegou, cintilante e arrebatadora, com o seu vestido de prata e o encanto dos olhares de espanto de todos, espelhado no brilho dos seus cabelos esvoaçantes de deusa da noite.
Foi por ela que o entardecer se distraiu e deixou que lhe roubasse estas palavras, com que agora vos descrevo o que realmente se passou.
A lua foi deusa e rainha, brilhou e encantou as almas mais sensíveis.
E mais uma vez, foi musa de poetas e aprendizes...
Até surgir este novo dia!
(Desc.Autor)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O Ritual do Café...


O Ritual do Café

Estampa-se o sol em delicados raios
Sobre o mármore branco e liso da cozinha.

Suavemente me debruço e uma porta abro,
Recolho a chávena fina e o florido prato.

Ergo o meu braço e num voo livre,
No gesto de um armário desvendar,
Recolho o nobre pó de inebriante aroma.

Alongo a mão que a gaveta encontra,
E dela escolho, enfim, a colher mais bela,
Brilhante, pequena, com terno recorte.

Tudo coloco em ordem e harmonia:
O prato tranquilo e a expectante chávena,
Nesta, o torrado grão moído, de castanho intenso.

No açúcar rico, centro o meu cuidado,
A montanha branca transportando, pura,
Em bojuda prata que doce se inclina.

E luzem cristais em cascata linda!
Depois, a água borbulhante, quente,
A mistura inunda, dissolvendo-a
Em espirais de espuma que a colher adorna.

Café! Café! Precioso encanto!
Em dégagé devant te cumprimento,
Os meus braços lanço em acolhimento grato.

Da janela aberta me acerco então.
Tão bela é a vista que o Outono pinta no jardim!
Castanho da terra e verde das plantas unem-se
À água que brilha em bebedouro antigo.

Aspiro, feliz, da manhã tranquila, o seu odor
A quente café e à relva orvalhada.
Olho o céu e sorvo um gole, outro e outro.

E assim me quedo, por instantes longos.
Entre o prazer forte do café e a doçura da manhã
Mais um dia de vida se inicia!

(Ilona Bastos -Lisboa, 24 de Outubro de 2004)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Desiderata...


Vá placidamente por entre o barulho e a pressa
e lembre-se da paz que pode haver no silêncio.
Tanto quanto possível sem capitular,
esteja de bem com todas as pessoas.
Fale a sua verdade calma e claramente
e escute os outros,
mesmo os estúpidos e ignorantes;
também eles têm a sua história.
Evite pessoas barulhentas e agressivas,
elas são tormentos para o espírito.
Se você se comparar aos outros
pode tornar-se vaidoso e amargo,
porque sempre haverá pessoas
superiores e inferiores a você.
Desfrute suas conquistas assim como seus planos.
Mantenha-se interessado em sua própria carreira,
mesmo que humilde;
é o que realmente se possui na sorte incerta dos tempos.
Exercite a cautela nos negócios
porque o mundo é cheio de artifícios.
Mas não deixe que isso
o torne cego à virtude que existe.
Muitas pessoas lutam por altas idéias
e por toda parte a vida é cheia de heroísmo.
Seja você mesmo,
não finja afeição nem seja cínico sobre o amor,
porque em face de toda aridez e desencadeamento
ele é perene como a grama.
Aceite gentilmente o conselho dos anos,
renunciando com benevolência as coisas da juventude.
Cultive a força do espírito
para proteger-se num infortúnio inesperado,
mas não se desgaste com os temores imaginários;
muitos medos nascem da fadiga e da solidão.
Acima de uma benéfica disciplina
seja bondoso consigo mesmo.
Você é filho do universo,
não menos que as árvores e as estrelas;
você tem o direito de estar aqui.
E que seja claro ou não para você,
sem dúvida o universo se desenrola como deveria.
Portanto, esteja em paz com Deus,
qualquer que seja sua forma de concebê-lo.
E sejam quais forem sua lida e suas aspirações
na barulhenta confusão da vida,
mantenha-se em paz com a alma.
Com todos os enganos,
penas e sonhos desfeitos,
este é ainda um mundo maravilhoso.
Esteja atento.
(Max Ehrmann)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Amores eternos...


Eu acredito em amores eternos,
daqueles que acompanham a gente pela vida inteira,
como se tempo e amor se fundissem num só elemento,
tornando-se imutáveis,
indestrutíveis.
Eu acredito em amores eternos,
daqueles que vão com você para qualquer lugar,
não importando o quão distante você esteja,
por que a pessoa amada reside em seu próprio coração.
Acredito em amores eternos e sublimes,
capazes de reconsiderar tudo,
com suavidade,
ternura e perdão.
Acredito, sim,
em amores para toda a vida,
e além da vida,
pois seria um tipo de amor unido à própria alma,
e sem alma a vida não tem razão...
Amores eternos existem sim,
e superam qualquer coisa,
mesmo quando ninguém mais acredita neles,
eles continuam sempre à espreita,
esperando apenas um olhar,
um retorno,
uma reconciliação.
(Augusto Branco)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Soneto de Fidelidade...


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinícius de Moraes)

Na ilha por vezes habitada...


Na ilha por vezes habitada do que somos,
há noites,manhãs e madrugadas
em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente
e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra
e apertamo-la nas mãos.
Com doçura...
Aí se contém toda a verdade suportável:
o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até ao sossos dela.
Libertemos devagar a terra
onde acontecem milagres como a água,
a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
(José Saramago)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Soneto do amigo...


Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
(Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A maior solidão...


A maior solidão é a do ser que não ama.
A maior solidão é a dor do ser que se ausenta,
que se defende, que se fecha,
que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,
no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor,
de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar,
o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher,
do amigo, do povo, do mundo.
esse queima como uma lâmpada triste,
cujo reflexo entristece também tudo em torno.
Ele é a angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção,
as que são o patrimônio de todos,
e, encerrado em seu duro privilégio,
semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.


(Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Presença...


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente,
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...


É preciso que a tua ausência trescale sutilmente, no ar,
a trevo machucado, as folhas de alecrim desde há muito guardadas,
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...


Mas é preciso, também,
que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.


É preciso a saudade para eu sentir como sinto - em mim -
a presença misteriosa da vida...


Mas quando surges és tão outra e múltipla
e imprevista que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


(Mário Quintana)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Eu gosto...



Gosto daquele amor que se recebe sem pedir,
Daquele carinho inesperado, verdadeiro...
Do beijo romântico e que parece se eternizar no espaço,
Do abraço apertado, acorrentado no coração.

Gosto daquele olhar envergonhado e diminuto,
Daquele sorriso sempre único e transparente,
Daquela mão sempre pronta para me segurar,
Da respiração ofegante e delirante de estar com você.

Gosto das brincadeiras sem sentido, sem nexo,
Das gargalhadas que vêm da alma, exageradas,
Do soninho no teu colo, no meu ninho,
Do teu querer-me sempre, do teu mimo.

Gosto de saber que gostas de estar comigo,
Não importa a hora, nem o tempo, nem o lugar,
Só o que te interessa é a minha presença, a minha pressa,
Só o te preocupas é a minha felicidade, a minha festa.

Gosto de saber que te faço feliz, assim como você me faz,
Que o teu futuro coincide com os meus sonhos, com o meu querer,
Que o teu sorriso vem de mim, e o meu de ti,
Que a nossa felicidade só depende agora de mim e de você.

Eu gosto de ter-te outra vez comigo,
De compartilhar contigo outras rizadas, outros sonhos,
De te conhecer de novo, de te reconhecer de novo,
De ter você, de estar com você, de ser de você.

Sim, eu gosto e como gosto, das tuas mudanças, do teu prumo,
Da sua versão melhorada, mais ainda encantada,
Mas sem perder a sua essência, o seu brilho único,
Sem perder o você que me deixou e sempre me deixa tão apaixonada.

(Germana Facundo)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O que alguém disse...


O Que Alguém Disse


"Refugia-te na Arte" diz-me Alguém "
Eleva-te num vôo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.

Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!"

No poente dourado como a chama
Estas palavras morrem... E n'Aquele
Que é triste, como eu, fico a pensar...

O poente tem alma: sente e ama!
E, porque o sol é cor dos olhos d'Ele,
Eu fico olhando o sol, a soluçar...

(Florbela Espanca)
in "Livro de Sóror Saudade"

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Amai-vos...


Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.
Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.
Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos,
e sede alegres, mas deixai
cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira
são separadas e, no entanto,
vibram na mesma harmonia.
Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.
E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.
Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.
E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.

(Gibran Kahlil Gibran)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Mal-Me-Quer


Mal-Me-Quer


Creio no mundo como num mal-me-quer,

porque o vejo.

Mas não penso nele...

porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele,

(Pensar é estar doente dos olhos).

Mas para olharmos para ele

e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia;

tenho sentidos...

Se falo na natureza

não é porque saiba o que ela é,

mas porque a amo,

e amo-a por isso.

Porque quem ama nunca sabe o que ama.

Nem sabe por que ama,

nem o que é amar...


(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Hino à Amizade


Hino à Amizade


Vou te ofertar
Na doçura da amizade
Estrelas que não se pode contar,
Mas que contarão
Nossas velhas histórias,
Elas brilharão
Como milhões de pirilampos
Em noites escuras...
Florirão
Como centenas de flores do campo
E falarão
Das nossas aventuras,
Dos caminhos
Que tivemos que passar
E dos mares que atravessamos,
Das barras que seguramos,
Do quanto viajamos em sonhos
À terras distantes
Buscando felicidade.
Dirão
Das noites sem lua
Em que você foi meu luar
Dos dias sem riso
Em que você foi meu sorriso...
E que quando eu pensei
Que não restava mais nada,
Você foi minha estrada,
Minhas mãos e minhas pernas,
Pra que eu pudesse caminhar.
E que quando fui embora
Seus olhos choraram sozinhos
Porque não quiseram me ver partir.
Tudo minhas estrelas
Vão te lembrar,
Mas que te lembrem,
Sobretudo,
É que não te esqueço,
Que você ainda é,
Por vezes,
Meus braços e minhas pernas
E um lindo luar,
Que enfeita minha vida,
Uma amizade tão querida,
Tão difícil de se esquecer,
Tão fácil de se guardar
Uma pessoa tão linda,
Tão fácil de se amar.

(Letícia Thompson)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Amigos São Flores e Poemas



Amigos São Flores e Poemas

Amigos são flores...
São flores plantadas ao longo do nosso caminho para que saibamos encontrar primavera o ano todo.
Quando o outono chega, cheio de beleza e melancolia, os amigos estão presentes nos trazendo alegria.
E, quando o inverno vem frio e escuro, trazendo saudades e noites longas, os amigos nos trazem calor e luz com o brilho da sua presença.
Essas flores belas perfumam nossa existência e nos fazem ver que não estamos sozinhos.
Se amigos são flores que duram um ano ou um dia não faz diferença, porque o importante são as marcas que deixam nas nossas vidas.
São as horas compartilhadas, horas de carinho, horas de amor e cuidado... um amigo que se doa sem esperar um retorno, que se entrega pelo prazer de ver a felicidade do outro, é uma flor que merece cuidados especiais; um ser grande e importante que nos emociona só pelo fato de existir.
É alguém que consegue chegar até nossa alma... um presente de Deus.
Se todo o mundo nos virar as costas e, no meio desse mundo, uma flor, nem que seja uma única flor de amizade nascer em nosso jardim, então toda a vida já terá valido a pena.

Amigos são poemas...
Os verdadeiros amigos são a poesia da vida.
Eles enchem nossos dias de cores, rimas e risos, e nos seguram a mão quando caminhar parece difícil.
Eles nos mostram que mesmo em dias nublados o sol está no mesmo lugar, e nos ensinam que a chuva pode ser uma canção de ninar nas noites solitárias e vazias.
Um amigo é alguém que nunca nos deixa só, mesmo quando não pode estar presente, pois sabemos que um pedacinho do seu coração está conosco.
Um amigo é alguém que pensa na gente mesmo estando separado por mil mares...
É alguém por quem a gente sabe que vale a pena viver...
Um amigo nem sempre diz sim, quando dizemos sim, e não, quando dizemos não.
Mas ele vai nos fazer entender com mais clareza aquilo que não conseguimos entender sozinhos. Um amigo é um bem precioso que não devemos deixar guardado numa caixinha de jóias, para usá-lo quando precisamos, mas tê-lo sempre presente junto a nós, mostrando ao mundo que riqueza mesmo é ter um verdadeiro amigo.

Amigos são flores... Amigos são poemas...
Como flores, devem ser cultivadas com carinho e dedicação, para que as tempestades da vida não esfacelem suas pétalas e para que possamos ter seu perfume em todas as estações.
Como poemas, devem ser sentidos nas fibras mais sutis da alma, com respeito e gratidão, para que sejam a melodia risonha a embalar nossas horas em todos os períodos do ano.

(Letícia Thompsom)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Amor e Amizade


Perguntei a um sábio,

a diferença que havia entre amor e amizade,

ele me disse essa verdade...

O Amor é mais sensível,

a Amizade mais segura.

O Amor nos dá asas,

a Amizade o chão.

No Amor há mais carinho,

na Amizade compreensão.

O Amor é plantado e com carinho cultivado,

a Amizade vem faceira,

e com troca de alegria e tristeza,

torna-se uma grande e querida companheira.

Mas quando o Amor é sincero,

ele vem com um grande amigo,

e quando a Amizade é concreta,

ela é cheia de amor e carinho.

Quando se tem um amigo ou uma grande paixão,

ambos sentimentos coexistem dentro do seu coração.

(William Shakespeare)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ao Amor Antigo...

Ao Amor Antigo
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona,
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém,
nunca fenece e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não.
Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
(Carlos Drummond de Andrade)


domingo, 30 de novembro de 2008

Quadros Adormecidos


A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos,
os seus rostos envolvidos pela sombra.
Sua beleza é triste e nostálgica porque,
sendo moradores da alma...
sonhos,
eles não existem do lado de fora.
Vez por outra, entretanto,
defrontamo-nos com um rosto...
ou será apenas uma voz...
ou uma maneira de olhar...
ou um jeito da mão...
que, sem razões, faz a bela cena acordar.
E somos possuídos pela certeza de que este rosto
que os olhos contemplam...
é o mesmo que, no quadro, está escondido pela sombra.
O corpo estremece.
Está apaixonado.
Acontece, entretanto,
que não existe coisa alguma que seja do tamanho
do nosso amor.
A nossa fome de beleza é grande demais.
Cedo ou tarde descobrirá que
o rosto não é aquele.
E a bela cena retornará à sua condição de sonho impossível da alma.
E só restará a ela alimentar-se da nostalgia que rosto algum poderá satisfazer...

(Rubem Alves)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Metade...


Metade


Que a força do medo que eu tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste...
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas,como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso, que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor, e a outra metade...também.

(Ferreira Gullar)