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terça-feira, 5 de abril de 2011

Voz do Brasil...


A voz do povo nascido neste país
Não é voz, é grito
Não é forte, é infeliz
Grita por uma palavra: Liberdade!
Mas não sabe como se diz...
A voz do povo nascido nesta terra
É um grito, sem teto, sem terra
Sem guerra...
É ser um ignorante comum
É ser habitante de um país e ao mesmo tempo de lugar nenhum...
A voz do povo nascido neste lugar,
Fala de sonhar e sambar...
De uma gente que vive por bem ou por mal
Que faz de sua desgraça um eterno carnaval...
A voz do povo nascido neste chão...
Fala de morte, medo, corrupção...
De riso de mulata nua,
De criança morrendo na rua...

A voz do povo nascido nesta nação...
Fala de gente sem nome, com fome,
De futebol, sua paixão...
Grita seu desespero e proclama sua esperança
Sob o azul do céu anil,
De suas praias morenas, de sua beleza infindável
Disso é feito o Brasil...
(Wanderley Assis de Melo Jr.)

terça-feira, 8 de março de 2011

Ser mulher...


É viver mil vezes em apenas uma vida.
É lutar por causas perdidas e
sempre sair vencedora.
É estar antes do ontem e depois do amanhã.
É desconhecer a palavra recompensa
apesar dos seus atos.

Ser mulher...

É caminhar na dúvida cheia de certezas.
É correr atrás das nuvens num dia de sol.
É alcançar o sol num dia de chuva.

Ser mulher...

É chorar de alegria e muitas vezes
sorrir com tristeza.
É acreditar quando ninguém mais acredita.
É cancelar sonhos em prol de terceiros.
É esperar quando ninguém mais espera.

Ser mulher...

É identificar um sorriso triste e uma lágrima falsa.
É ser enganada, e sempre dar mais uma chance.
É cair no fundo do poço, e emergir sem ajuda.

Ser mulher...

É estar em mil lugares de uma só vez.
É fazer mil papeis ao mesmo tempo.
É ser forte e fingir que é frágil...
Pra ter um carinho.

Ser mulher...

É se perder em palavras e
depois perceber que se encontrou nelas.
É distribuir emoções
que nem sempre são captadas.

Ser mulher...

É comprar, emprestar, alugar,
vender sentimentos, mas jamais dever.
É construir castelos na areia,
ve-los desmoronados pelas águas.
E ainda assim amá-los.

Ser mulher...

É saber dar o perdão...
É tentar recuperar o irrecuperável.
É entender o que ninguém mais conseguiu desvendar.

Ser mulher...

É estender a mão a quem ainda não pediu.
É doar o que ainda não foi solicitado.

Ser mulher...

É não ter vergonha de chorar por amor.
É saber a hora certa do fim.
É esperar sempre por um recomeço.

Ser mulher...

É ter a arrogância de viver
apesar dos dissabores,
das desilusões, das traições e
das decepções.

Ser mulher...

É ser mãe dos seus filhos...
Dos filhos de outros.
É amá-los igualmente.

Ser mulher...

É ter confiança no amanhã e
aceitação pelo ontem.
É desbravar caminhos difíceis
em instantes inoportunos.
E fincar a bandeira da conquista.

Ser mulher...

É entender as fases da lua
por ter suas próprias fases.

(Autor Desc.)

quarta-feira, 2 de março de 2011

A chuva chove...


A chuva chove mansamente… como um sono
que tranqüilize, pacifique, resserene…
A chuva chove mansamente… Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine…

E vem-me o sonho de uma véspera solene,
em certo paço, já sem data e já sem dono…
Véspera triste como a noite, que envenene
a alma, evocando coisas líricas de outono…

…Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
com muita névoa pelos ombros da montanha…
Paço de imensos corredores espectrais,

onde murmurem, velhos órgãos, árias mortas,
enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
revira in-fólios, cancioneiros e missais…

(Cecília Meireles)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Não direi...


Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

(José Saramago)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Da minha aldeia...


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

(Alberto Caeiro)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Poema de Primavera


Metamorfose dos encantos
Encaixe dos sentimentos
Delicadezas se ondulam em flores
Nas asas da imaginação
Seu sorriso, meu disfarce
Me perco no equinócio do seu florescer
Num canto bem adubado do meu coração
Outra semente germina
Pulula em vida pós-inverno
De begônias e hortênsias
Ornando meu caminhar.
Quem hibernou, involuntário
Ao saltar para a primavera
Encontra suave brisa
A refrescar a tez acalorada febrilmente.
Enfim vitória de uma semente
É primavera chegando
A esperança renascendo
O colorido tingindo
O caminho do passante
Desencasula... para a vida
Desacrisola... para a maturidade
As forças da natureza me deixam e êxtase
Momento de recomeçar
Floreça em mim a primavera de minh'alma
As lágrimas transformem-se em suave brisa
Ou num orvalho manso a regar meu coração...
Estação das flores dentro de mim,
Reaja ao inverno sequioso dos sonhos meus
E brotem novos sonhos
Novas forças,
Nova vontade de sonhar.
Caminho lentamente, mas com firmeza
Esqueço o que doeu
Apago o traço da dor
Aborto a palavra saudade
Construo ruas de felicidade
Onde dançarei a dança da paz
Com o arco-iris a brincar
Ao vento vão os pensamentos
Novos sonhos, novos alentos
O tempo... ah, o tempo! Meu íntimo confidente,
A primavera me trouxe.
Um dia novo está surgindo
Um sonho novo me envolve
Vida nova...
Saúde...
Paz...
Enfim, a primavera me beija a face.

(Alice Poltronieri)

sábado, 7 de agosto de 2010

Soneto de Florença


Florença... que serenidade imensa
Nos teus campos remotos, de onde surgem
Em tons de terracota e de ferrugem
Torres, cúpulas, claustros: renascença

Das coisas que passaram mas que urgem...
Como em teu seio pareceu-me densa
A selva oscura onde silêncios rugem
No meio do caminho da descrença...

Que tristes sombras nos teus céus toscanos
Onde, em meu crime e meu remorso humanos
Julguei ver, na colina apascentada

Na forma de um cipreste impressionante
O grande vulto secular de Dante
Carpindo a morte da mulher amada...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Infinito


As coisas que amamos,
as pessoas que amamos,
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra maneira se tornam absolutas,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis...
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 20 de junho de 2010

Espaço Curvo e Finito


Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

(José Saramago)

quarta-feira, 26 de maio de 2010


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Reflexos


Nas poças de chuva que a rua enfeitam
há um milhão de coisas:
um alto edifício com um velho à janela,
um ramo frondoso com suas mil folhas,
dois pombos cinzentos em encontro amoroso,
um vaso de flores que a senhora observa,
as nuvens bojudas, percorrendo o céu
e a folha dourada que o plátano larga,
que vem a voar, flutua e poisa
serena, confusa, no mar...

E, então, se te chegas mais perto,
estendendo a mão para o barco alcançar,
é o mundo que eu vejo na poça de água,
magnífico, fascinante, reflexo vibrante
do teu puro olhar.

(Ilona Bastos)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Quero


Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Este é o inverno


Um frio de leve
vem pra ficar.
A brisa suave
faz a árvore balançar.
O vento sopra
assobiando.
O céu escuro
vai ficando.
As nuvens passam
de mansinho.
A chuva chega
devagarinho.
As pessoas correm
abrindo guarda-chuvas.
Vi um homem de casaco
e uma mulher de luvas.
É esse o inverno
sorrateiro.
Vem chegando
e nem avisa primeiro.

(Clarice Pacheco)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Existe um Lugar


Existe um lugar onde se descansa!
Onde se guarda coisas boas!
Onde se pode descrever o coração e a alma!
Existe um lugar onde as letras se soltam!
Onde a poesia dança!
Onde o amor se faz entre poeta e poesia!
Existe um lugar de verdades plantadas!
De identidade reconhecida!
Lugar onde a Arte se deixa brincar!
Onde a brincadeira é só para emocionar!
Existe um lugar onde não existe palco único!
Onde o principal é o conjunto!
Onde os elogios são estimulantes!
Onde se entra e não se deseja sair!
Existe um lugar com cheiro de gente feliz!
Com poetas e poesias que vivem da verdade!
Existe um lugar onde os criadores se rendem as suas criações!
Onde se admira a palavra “dom”!
Onde a simplicidade cria raiz para virar inspiração!
Existe um lugar onde se nasce!
Renasce!
Cria-se!
Cresce-se!
E Ama-se muito tudo que se faz!
Esse lugar é aqui!
Tire os chinelos então...
Balance as asas!
Respire fundo e viaje conosco.!

(Mony Mello)

sexta-feira, 30 de abril de 2010


"No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ... "

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 23 de abril de 2010


De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

(Cecília Meireles)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Mistério


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

(Florbela Espanca)

Canção de Outono


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

(Cecília Meireles)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Amizade


Uma semente que ensaia a vida
Através da verdura.
Mais tarde, um botão
Que as folhas acolhem
Com leve doçura.
E a flor que se ergue,
Sorrindo ao sol,
Brilhando ao luar.
Tal é a Amizade,
Que nasce, que cresce,
Que a vida engrandece,
E só ao coração
Compete guardar.

(Ilona Bastos)

terça-feira, 6 de abril de 2010


As coisas que amamos
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra maneira se tornam absoluta
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar"

(Carlos Drummond de Andrade)